ENCICLOPÉDIA POÉTICA

INTRODUÇÃO À ENCICLOPÉDIA
E ÀS PRÁTICAS POÉTICAS

seta para baixo tangram

Por que uma Enciclopédia Poética?

/ / / RE _ INTEGRARTE

Este livro, resultado da primeira edição do projeto RE_INTEGRARTE, inaugura uma série, que busca abrir possibilidades para pensar e praticar as relações entre arte e pedagogia. Tradicionalmente, uma enciclopédia propõe uma apresentação extensiva, panorâmica de um determinado universo, área de conhecimento ou tema, a palavra grega egkuklopaideía (egkúklios + paideía) tem o sentido de ‘ensino circular, panorâmico’. Neste caso, contudo, tomamos emprestado esse conceito/forma, não com a pretensão de esgotar os nossos temas, mas como meio prático de fazer circular formas experienciais de ensino. Propõe-se, portanto, esta Enciclopédia Poética, ampliar as possibilidades de acesso a práticas artísticas (de áreas diversas), servindo-se para isso de uma forma de organização clara e, ao mesmo tempo, múltipla, que busca recursos gráficos, textuais e hipertextuais, para traduzir um campo sensível e relacional. 

Esta enciclopédia será disponibilizada virtualmente para o público em geral e os exemplares impressos serão distribuídos para escolas públicas e privadas.

O primeiro volume da Enciclopédia Poética contempla a apresentação de cinco práticas poéticas desenvolvidas neste projeto, por artistas convidados de diversas linguagens, sendo cada uma delas estruturadas a partir de um tema específico, derivado do tema geral da “separação e inseparabilidade”.

1. RISCO

A prática poética que abre o conjunto apresentado nesta enciclopédia, foi desenvolvida pela artista visual Joana Gancho e, tem como mote o tema do RISCO. Se por um lado o risco aponta um temor de estarmos a correr perigo, especialmente por lidarmos com o incerto, com o oculto e não visível e, com possibilidades reais de fim de algo ou alguém. O ditado português “quem não arrisca, não petisca” poderá dizer que, por outro lado, sabemos que esta ousadia em estar aberto ao inusitado muitas vezes nos surpreende positivamente, brindando-nos com algo muito além das nossas expectativas. Como continuar a arriscar sem colocar a saúde ou a vida em risco? Possivelmente acreditando que existem outros modos de agenciar os nossos corpos, afetos e encontros, recriá-los, transformá-los. É através desta perspectiva que a artista Joana Gancho aborda o tema e desenvolve a sua poética, propondo uma nova forma de estar junto, apesar das distâncias, onde as sombras, as linhas, os traços, os riscos possam se tocar e criar relações entre as crianças: os contornos das sombras oferecem uma ponte para o encontro, para a convergência, transgredindo uma condição de separação a uma de tangenciamento e união com segurança. O RISCO, aqui é visto de outro ponto de vista, onde as condicionantes limitantes tornam-se condições para seguirmos juntos.

2. CUIDADO DE SI E CUIDADO DO OUTRO

A segunda prática poética, proposta pelo coreógrafo e performer Gustavo Ciríaco, aborda o CUIDADO DE SI e DO OUTRO. Se antes da pandemia este tema já ocupava um lugar fundamental para pensar e repensar as histórias da vida em comum, após este acontecimento, ele torna-se uma necessidade concreta que impõe novas regras ao quotidiano, alterando de forma abrupta e radical as possibilidades de estar junto, em comunidade. Explicita-se nesta nova conjuntura social, justamente, a separação e a inseparabilidade entre uns e outros. Ou seja, só é possível cuidar de si, se cuidamos do outro e, para cuidar do outro é necessário cuidar de si. Na proposta de Gustavo Ciríaco este exercício do cuidado dá-se pela experiência de uma dança no espaço comum. Ao criar um chão de danças, inspirado nos pisos de Versailles, esta prática estimula a partilha do espaço e das suas regras, exigindo que os passos estejam em sintonia e escuta. Assim, com a distância e apesar dela, os corpos conseguem conectar-se pelo cuidado do espaço comum que perpassa, une e separa a todos.

3. EXPANSÃO

A ação de expandir provoca-nos a nos encontrar com o inusitado, com o novo, com algo desconhecido, alargando e ampliando os horizontes, as fronteiras, os modos de pensar e criar. A EXPANSÃO tem sido, ao longo dos tempos, premissa orientadora do desenvolvimento civilizacional e cultural do ocidente. No entanto, esses processos justificam o abuso, a opressão e a desigualdade que são inerentes à colonização. Esse cenário torna-se ainda mais explícito no contexto atual e nos conduz, frente à contração imposta às relações, desejos, práticas e ações quotidianas, às questões: como dissociar a ideia de expansão à de progresso e buscar outras formas de alargamento de si, das relações e do convívio com os outros? Que formas de expansão, não coloniais, são possíveis? Que tipo de nutrição seria necessária em tempos de tamanha escassez experiencial? O músico e compositor João Godinho parte destas perguntas para criar a terceira prática poética, propondo uma abordagem onde o som, o “fazer música”, seja o meio para expandirmos pessoal e coletivamente. Sons estrambólicos, desconhecidos, e imaginários tornam-se possibilidades de diálogo/relação com aquilo que está distante, longe. A analogia da “bateria humana” como prática que convoca uma maestria de diversos sons produzidos por cada uma das crianças, revela uma interdependência que configura uma expansão sonora-corporal coletiva.

4. PARAGEM E TRANSIÇÃO

Através de uma experiência artesanal do cinema, a proposta da realizadora Cláudia Alves, nos faz perceber que parar e transitar são ingredientes fundamentais do movimento. Dito de outro modo, para que o movimento aconteça seria necessário transitar entre instantes, ou seja, a PARAGEM e a TRANSIÇÃO comporiam o movimento como uma sucessão de instantes presentes. Se, como provoca Donna Haraway, ficar com o problema é também ficar com o presente, um presente espesso, poder-se-ia dizer, que o fazer do cinema dá a ver também que um processo de fabulação ganha corpo ao colocar em relação momentos presentes, aparentemente separados, que transitam em outros, formando a percepção de um movimento inseparável. Deste modo, esta prática convida as crianças a colecionarem imagens, instantes precisos e preciosos que podem transitar entre si e colocar em marcha uma fabulação do presente.

5. CORPO E ESPAÇO

O músico e compositor Ricardo Sá Leão propôs um objeto-livro  para a quinta e última prática poética desta Enciclopédia. Partindo da relação corpo e espaço, propõe jogos de percussão corporal, de gestos e deslocamentos espaciais, orientados pelos sons produzidos pelas crianças e/ou oferecidos pelo facilitador.

Este tema CORPO e ESPAÇO é transversal aos temas anteriores e, foi sempre tangenciado de alguma forma nas práticas poéticas desta Enciclopédia. Na relação do corpo com o ambiente, com o espaço, está sempre implicado o paradoxo da comunhão e da separação, possivelmente relacionado a essa primordial ligação e posterior separação a uma unidade que, em tempos anteriores, era habitual. A construção da cidade é a manifestação desse paradoxo: o espaço público, esse espaço comum, oferece aos corpos, por um lado, certa mobilidade de ir e vir, uma autonomia de livre circulação e socialização e, por outro, limitações que legislam o seu modo de ser e estar, permanecer ou circular, privilegiando uns e prejudicando tantos outros. Em tempos pandémicos, frente às contingências sanitárias e limitações de circulação e ocupação do espaço público, nutrir a inseparabilidade é tema cada vez mais emergente.

Como inventar outros modos de relação, entre o corpo e o espaço e, entre corpos para encontrar outros modos de estarmos juntos? Como tomar o próprio corpo como espaço, e a dimensão dos seus gestos como meio de relação entre os corpos-espaços? Mesmo que o corpo-a-corpo se torne um meio menos recorrente, como poderemos nutrir a consciência da inseparabilidade entre eu-outro-mundo? Criar corpos livres em qualquer esfera que seja, poderá ser o de recriar, em práticas quotidianas ou extra quotidianas, outras formas de relações possíveis que cultivem o desejo a abertura de continuar a encontrar o outro e, os muitos outros que somos, a nossa multidão pessoal e coletiva.

Bom atravessamento!

Textos por Joana Levi e Julia Salem /// Videos e Fotografias por Francisca Veiga

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