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ENCICLOPÉDIA DE PRÁTICAS POÉTICAS

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APRESENTAÇÃO

/ / / RE _ INTEGRARTE

O projeto RE_INTEGRARTE foi concebido pelo coletivo de artistas da PENHA.SCO, em resposta ao insondável desafio que o advento da pandemia impôs ao tecido social, político, económico e cultural, fazendo com que às dinâmicas relacionais se alterassem de forma radical. Neste contexto, duas fases da vida mostraram-se particularmente vulneráveis às medidas de isolamento adotadas, como modo de contenção da disseminação do novo coronavírus SARS-CoV-2: a infância e a velhice. 

Esta primeira edição do RE_INTEGRARTE dedica-se à infância e, realiza-se através do desenvolvimento de práticas poéticas, destinadas a crianças entre 8 e 10 anos, de escolas públicas e privadas. A criação  destas práticas, teve como pressuposto acolher e dar fluência às experiências, objetivas e subjetivas, vivenciadas pelas crianças neste período excepcional, para que pudessem fruir desse tempo/espaço como um meio de elaboração afetiva, relacional, sensorial daquilo que parece “não fazer sentido”, mas que “é sentido” como ferida exposta. 

A questão base que orienta pedagogicamente o projeto é: como é que nos podemos implicar na problemática que estamos a viver, sem nos agarrarmos às respostas “disponíveis”? Respostas que, ao fim e ao cabo, sejam elas otimistas ou pessimistas, colocam-nos passivos diante do problema. Seja, por um lado, pela esperança cega numa salvação tecnológica ou, por outro, pela desesperança total sustentada por teorias da conspiração ou de um fim apocalíptico. A bióloga e filósofa californiana Donna Haraway é quem nos inspira neste sentido. Em “Staying with the trouble” (2016), Haraway aponta ser necessário seguirmos com o problema, atravessá-lo por dentro, num movimento de recuperação que se possa dar no tempo, encontrando brechas possíveis para lidar com as questões, emergidas com o advento da pandemia, que não são inéditas, mas que explicitam e agudizam as desigualdades estruturais da nossa sociedade.

É, justamente, neste sentido que a partir do tema “separação e inseparabilidade”, o RE_INTEGRARTE busca ativar a necessidade – imposta pelo contexto pandémico – de processar, afetiva e sensivelmente, as seguidas transições entre isolamento e ressocialização, tomando como ferramenta a arte relacional. Esta proposta, assente numa metodologia de criação interdisciplinar, toma os processos artísticos como dispositivos de relação e, dimensiona a arte como “médium” de desenvolvimento da vida, espaço de agenciamento subjetivo entre ética-estética, práticas criativas e contextos político-culturais. 

O educador e filósofo Jorge Larrosa Bondía, emNotas Sobre a experiência e o Saber da Experiência” (2002), afirma que somos, a sociedade ocidental, uma sociedade do conhecimento de tal modo que, após lermos algo ou adquirirmos um conteúdo por meio de uma informação, ou teoria, nos advém a satisfação por ampliarmos o nosso universo de conhecimento. Um sujeito bem informado passa a ter muitas opiniões, o que o inibe em relação à possibilidade de vivências experimentais. Experimentar seria “provar” aquilo que está no exterior, ou seja: que é estrangeiro, estranho, desconhecido. Essa falta de prática, em alguma medida, separa o sujeito da existência, tornando a vida quotidiana cada vez mais carente de experiências. Seria necessário tempo para que o que nos acontece atravesse as inúmeras camadas da percepção, transformando algo no indivíduo e produzindo novos e singulares afetos. 

Neste sentido, poder-se-ia dizer que a arte sempre é, de alguma forma, relacional e experiencial, na medida em que é um agente (estético, político e cultural) que nos convida a estarmos juntos por determinado tempo, seja numa exposição, peça performativa ou musical, ou como artesãos, educadores e aprendizes a praticar e criar. É também comunicacional e funciona como agente de diálogo, religando o que muitas vezes está fracionado no sistema político-económico, sendo um espaço de aproximação e estreitamento das relações e agente de mudanças sociais. O entendimento de arte que este projeto busca ativar é, portanto, uma prática expandida, mais interessada em estar aberta ao encontro, em intensificar as experiências e os seus afetos e, dar passagem à existência das comunidades envolvidas.

Sob essa perspectiva propomos que esse nosso “problema atual” e os seus temas derivados, orientados nesse projeto, seja abordado, tanto na elaboração de práticas poéticas, como na vivência de ateliês-performances. Não se trata aqui de propor uma atividade ou uma “boa aula” com fins específicos, mas sim de gerar condições imersivas de modo a dar sentidos (sensoriais e significantes) para aquilo que está sem sentido neste momento. Uma experiência artística compartilhada que dê lugar à vulnerabilidade, a narrativas não lineares, a experiências da diferença, a saberes indeterminados, estranhos, errantes. Que gere um saber que seja sabor quando se prova.

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